{"id":857,"date":"2007-08-16T00:00:00","date_gmt":"2007-08-16T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ascom.ufla.br\/site\/index.php\/2007\/08\/falta-querer\/"},"modified":"2007-08-16T00:00:00","modified_gmt":"2007-08-16T00:00:00","slug":"falta-querer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/2007\/08\/16\/falta-querer\/","title":{"rendered":"Falta querer"},"content":{"rendered":"<p>Correio Braziliense, 16\/08\/07<\/p>\n<p>Cristovam Buarque <\/p>\n<p>Professor da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) e senador pelo PDT-DF<\/p>\n<p>A C\u00e2mara dos Deputados realizou nesta semana oportuno debate com uma pergunta: \u201cPor que a educa\u00e7\u00e3o deu certo em outros pa\u00edses e n\u00e3o deu certo no Brasil?\u201d A resposta exige apenas tr\u00eas palavras: \u201cPorque eles quiseram\u201d. A pergunta ent\u00e3o \u00e9: \u201cPor que n\u00e3o quisemos?\u201d <\/p>\n<p>Por quatro raz\u00f5es: primeira, cultural. N\u00e3o somos um povo, elite e massa, com vis\u00e3o e sentimento de que educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um valor fundamental. Para n\u00f3s, educa\u00e7\u00e3o \u00e9, no m\u00e1ximo, um servi\u00e7o p\u00fablico, como \u00e1gua, esgoto; com valor inferior aos investimentos na infra-estrutura econ\u00f4mica, como energia, transporte, estrada, portos, aeroportos, bancos, e inferior tamb\u00e9m aos bens de consumo. Nenhuma fam\u00edlia brasileira compraria uma televis\u00e3o em uma loja parecida com a escola onde deixa seus filhos. <\/p>\n<p>Faz parte da cultura brasileira ver a educa\u00e7\u00e3o como cap\u00edtulo secund\u00e1rio ao prop\u00f3sito de renda, patrim\u00f4nio, bem-estar, soberania, justi\u00e7a, democracia. O padr\u00e3o de beleza \u00e9 f\u00edsico, jamais um jovem \u00e9 tido como atraente por seus conhecimentos, por suas notas na escola. As novelas mostram seus her\u00f3is com base na riqueza, na sa\u00fade, no corpo atl\u00e9tico, nunca na forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, filos\u00f3fica ou cient\u00edfica. E, se fizer essa invers\u00e3o, parecer\u00e1 falso. <\/p>\n<p>Mesmo aqueles que se preocupam com a educa\u00e7\u00e3o dos filhos olham menos o conhecimento que ter\u00e3o do que as vantagens salariais que poder\u00e3o obter com seus conhecimentos. Por isso, no Brasil, o interesse \u00e9 maior com o diploma do que conhecimento. <\/p>\n<p>A segunda raz\u00e3o \u00e9 hist\u00f3rica. A cultura \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia da hist\u00f3ria. A popula\u00e7\u00e3o deseducada n\u00e3o d\u00e1 valor \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. A m\u00e1 escola de hoje \u00e9 vista como boa, porque os pais nada tiveram, agora seus filhos t\u00eam onde ficar, comer e ter a impress\u00e3o que estudam. A exclus\u00e3o gera a aceita\u00e7\u00e3o da exclus\u00e3o, como as castas na \u00cdndia. No Brasil, os pobres v\u00eaem as boas escolas como um direito apenas dos filhos dos ricos, e os ricos acham que basta educar seus filhos. Os primeiros acham que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma boa escola para todos, os outros acham que n\u00e3o \u00e9 preciso. <\/p>\n<p>Terceira, pol\u00edtica. Somos um povo dividido entre elite e pov\u00e3o. E historicamente a vontade pol\u00edtica \u00e9 orientada para atender aos desejos da minoria privilegiada, n\u00e3o \u00e0s necessidades das massas exclu\u00eddas. Isso vale tanto para os produtos da economia, que atendem ao mercado formado pela renda dos ricos; como para os servi\u00e7os sociais: moradia, \u00e1gua, esgoto, transporte, cultura e tamb\u00e9m educa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Por isso, os aeroportos, por exemplo, s\u00e3o federais, mas as rodovi\u00e1rias, municipais ou estaduais; as universidades, as escolas t\u00e9cnicas s\u00e3o federais, mas as escolas b\u00e1sicas, municipais ou estaduais. Quando os aeroportos entram em crise, o ministro \u00e9 substitu\u00eddo, surge dinheiro para novas pistas, trens para levar os passageiros da cidade a novos aeroportos. Mas a trag\u00e9dia educacional das greves se arrasta por meses sem qualquer a\u00e7\u00e3o da parte dos governos, especialmente o federal. <\/p>\n<p>Quarta, abandono. Na educa\u00e7\u00e3o, d\u00e9cadas de abandono fizeram com que o abandono gerasse um descaso ainda maior. O abandono provocou greves, as greves provocam mais abandono; o mesmo se passa com os baixos sal\u00e1rios, e a perda de interesse dos professores, com as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es dos pr\u00e9dios, com o roubo de equipamentos; com a viol\u00eancia. <\/p>\n<p>S\u00e3o essas as principais raz\u00f5es que impedem o Brasil de dar o salto na educa\u00e7\u00e3o: por falta de uma consci\u00eancia social que nos impede de ter a vontade pol\u00edtica coletiva de mudar. Por isso \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil fazer a revolu\u00e7\u00e3o educacional no Brasil. N\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o sabemos como fazer, \u00e9 porque ainda n\u00e3o nos convencemos de que \u00e9 preciso fazer. <\/p>\n<p>A sa\u00edda \u00e9 fazer da educa\u00e7\u00e3o uma quest\u00e3o nacional, fazer da escola uma responsabilidade federal. Tomar a decis\u00e3o de que as escolas ter\u00e3o a mesma qualidade, independente da fam\u00edlia em que a crian\u00e7a nasceu e da cidade onde vive. O desafio \u00e9 convencer o povo de que isso \u00e9 poss\u00edvel e preciso. <\/p>\n<p>A maior tarefa de quem quiser mudar a educa\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 assumir o papel de educacionista, convencer, conscientizar os brasileiros de que \u00e9 preciso e \u00e9 poss\u00edvel, fazer essa revolu\u00e7\u00e3o. S\u00f3 mudando a cabe\u00e7a do Brasil \u00e9 que vamos educar as cabe\u00e7as de nossas crian\u00e7as, com a qualidade e a igualdade de que o Brasil precisa. \n <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Correio Braziliense, 16\/08\/07 Cristovam Buarque Professor da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) e senador pelo PDT-DF A C\u00e2mara dos Deputados realizou nesta semana oportuno debate com uma pergunta: \u201cPor que a educa\u00e7\u00e3o deu certo em outros pa\u00edses e n\u00e3o deu certo no Brasil?\u201d A resposta exige apenas tr\u00eas palavras: \u201cPorque eles quiseram\u201d. 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