{"id":751,"date":"2007-07-13T00:00:00","date_gmt":"2007-07-13T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ascom.ufla.br\/site\/index.php\/2007\/07\/a-disfuncionalidade-da-universidade-publica\/"},"modified":"2007-07-13T00:00:00","modified_gmt":"2007-07-13T00:00:00","slug":"a-disfuncionalidade-da-universidade-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/2007\/07\/13\/a-disfuncionalidade-da-universidade-publica\/","title":{"rendered":"A &#8216;disfuncionalidade&#8217; da universidade p\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p>Folha de S\u00e3o Paulo, 13\/07\/07<\/p>\n<p>RENATO DAGNINO<\/p>\n<p>A universidade perif\u00e9rica n\u00e3o serve nem \u00e0 elite econ\u00f4mica e pol\u00edtica, nem ao que se vem chamando de movimentos sociais <\/p>\n<p>O ENFRENTAMENTO a que estamos assistindo, ao n\u00e3o explicitar a raz\u00e3o da escassa vontade dos governantes (e, em certa medida, da sociedade) de manter o modelo de universidade p\u00fablica vigente, n\u00e3o levar\u00e1 \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da sua crise cr\u00f4nica. Essa raz\u00e3o \u00e9 sua crescente &#8216;disfuncionalidade&#8217;. Isto \u00e9, o fato de que ela, por ser parte de um sistema socioecon\u00f4mico marcado pela nossa condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica e em processo cont\u00ednuo de auto-organiza\u00e7\u00e3o, cada vez menos atende aos interesses dos dois segmentos contradit\u00f3rios que conformam esse sistema. Exagerando: a universidade perif\u00e9rica n\u00e3o serve nem \u00e0 elite econ\u00f4mica e pol\u00edtica, que a ocupa e controla, nem ao que se vem chamando de movimentos sociais, que nela n\u00e3o podem entrar. Radicalizando ainda mais, para que n\u00e3o caiba d\u00favida: nem \u00e0 classe dominante (o que se alude como &#8216;capital&#8217;), nem \u00e0 classe dominada (o que se denomina &#8216;trabalho&#8217;). <\/p>\n<p>Os atores que se enfrentam -as lideran\u00e7as docentes e discentes e os que elas denominam governantes obscurantistas e autorit\u00e1rios- pertencem, se me permitem generalizar, ao primeiro segmento: elite. Eles se op\u00f5em em muitas coisas, mas ambos discordariam do diagn\u00f3stico da &#8216;disfuncionalidade&#8217;. Garantem que a universidade \u00e9 imprescind\u00edvel para atender as demandas cognitivas dos projetos pol\u00edticos dos dois segmentos antag\u00f4nicos da nossa sociedade. Para explicitar os seus interesses em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 universidade, mostrarei como esses segmentos dela participam. E, mais importante, o que dela demandariam em termos cognitivos para viabilizar seus projetos econ\u00f4mico-produtivos coletivos. <\/p>\n<p>Primeiro, o lado das elites. Seus membros s\u00e3o maioria na universidade; t\u00eam imprimido sem questionamento sua marca e t\u00eam sabido beneficiar-se do status social conferido pelo diploma e pelas habilidades profissionais que satisfazem seus interesses. A viabiliza\u00e7\u00e3o do seu projeto chegou a demandar algum conhecimento produzido na universidade. Ele os ajudou, enquanto propriet\u00e1rios dos meios de produ\u00e7\u00e3o, a acumular capital no \u00e2mbito dos modelos econ\u00f4micos prim\u00e1rio-exportador e de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es. E, enquanto governantes, a se legitimar por meio do projeto &#8216;Brasil grande pot\u00eancia&#8217;. <\/p>\n<p>Para mostrar a &#8216;disfuncionalidade&#8217;, que se traduz no fato de as empresas hoje pouco demandarem conhecimento localmente produzido (incorporado em pessoas ou desincorporado), aponto dois indicadores: a) quase 70% da escassa minoria dita inovadora declara que a compra de bens de capital \u00e9 sua principal estrat\u00e9gia de inova\u00e7\u00e3o, enquanto 16% apontam a realiza\u00e7\u00e3o de P&#038;D; b) enquanto 70% dos mestres e doutores norte-americanos que se formam em ci\u00eancias &#8216;duras&#8217; e engenharias v\u00e3o fazer pesquisa na empresa privada, no Brasil, os 30 mil que se formar\u00e3o no ano pr\u00f3ximo, se quiserem fazer o mesmo, ter\u00e3o que disputar as 300 vagas que, num cen\u00e1rio r\u00f3seo, se abrir\u00e3o caso o estoque de 3.000 que l\u00e1 trabalham cres\u00e7a uns inesperados 10%. <\/p>\n<p>O fato de que a capacidade de acumula\u00e7\u00e3o da empresa prescinde atualmente das universidades (e dos institutos de pesquisa p\u00fablicos) evidencia o lado empresarial da &#8216;disfuncionalidade&#8217;. Sobra para as elites s\u00f3 o status, decrescente, que ela proporciona. Por tr\u00e1s do enfrentamento expl\u00edcito, h\u00e1 um outro, surdo, mas decisivo para evitar essa &#8216;disfuncionalidade&#8217;. Nele, os tradicionais partid\u00e1rios da id\u00e9ia ing\u00eanua de oferecer conhecimento de qualidade \u00e0 sociedade encararam os pr\u00f3-mercado, os partid\u00e1rios do empreendedorismo. Conscientes da &#8216;disfuncionalidade&#8217; empresarial, estes t\u00eam se lan\u00e7ado na defesa do que alegam ser a demanda da empresa, logrando a privatiza\u00e7\u00e3o branca do espa\u00e7o p\u00fablico em seu benef\u00edcio. Apesar de diferentes, os interesses s\u00e3o negoci\u00e1veis e tendem a conformar um modelo que se contrap\u00f5e ao que atende aos movimentos sociais. <\/p>\n<p>Sobre a &#8216;disfuncionalidade&#8217; do lado da classe dominada, \u00e9 redundante comentar as barreiras ao seu acesso \u00e0 universidade p\u00fablica. Para evidenciar que a viabiliza\u00e7\u00e3o do projeto pol\u00edtico dos movimentos sociais est\u00e1 dela dissociado, aponto dois indicadores: a) mais de 50% da PEA, sabidamente os mais pobres, est\u00e1 fora do mercado formal, aquele a que poderia aceder por sua passagem pela universidade, se n\u00e3o estiv\u00e9ssemos numa &#8216;economia que cresce sem empregar&#8217;; b) a universidade acompanha uma tend\u00eancia mundial em que 70% do gasto em pesquisa \u00e9 privado (deste, 70% \u00e9 realizado por multinacionais), o que torna o conhecimento que produz &#8216;disfuncional&#8217; para a demanda cognitiva das redes de economia solid\u00e1ria que aparecem como \u00fanica alternativa vis\u00edvel de gera\u00e7\u00e3o de trabalho e renda. <br \/>\nColocar o interesse dos movimentos sociais na agenda do enfrentamento surdo \u00e9 uma tarefa urgente da comunidade de pesquisa de esquerda. Essa parece ser o \u00fanico modo de explicit\u00e1-lo e impedir que a universidade se torne ainda mais &#8216;disfuncional&#8217;. <\/p>\n<p>RENATO DAGNINO, 58, mestre em economia do desenvolvimento e doutor em ci\u00eancias humanas, \u00e9 professor titular da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e um dos fundadores do Departamento de Pol\u00edtica Cient\u00edfica e Tecnol\u00f3gica daquela universidade\n <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Folha de S\u00e3o Paulo, 13\/07\/07 RENATO DAGNINO A universidade perif\u00e9rica n\u00e3o serve nem \u00e0 elite econ\u00f4mica e pol\u00edtica, nem ao que se vem chamando de movimentos sociais O ENFRENTAMENTO a que estamos assistindo, ao n\u00e3o explicitar a raz\u00e3o da escassa vontade dos governantes (e, em certa medida, da sociedade) de manter o modelo de universidade &hellip; <a href=\"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/2007\/07\/13\/a-disfuncionalidade-da-universidade-publica\/\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">A &#8216;disfuncionalidade&#8217; da universidade p\u00fablica<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-751","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/751","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=751"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/751\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=751"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=751"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=751"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}