{"id":716,"date":"2007-06-21T00:00:00","date_gmt":"2007-06-21T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ascom.ufla.br\/site\/index.php\/2007\/06\/a-educacao-na-rede\/"},"modified":"2007-06-21T00:00:00","modified_gmt":"2007-06-21T00:00:00","slug":"a-educacao-na-rede","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/2007\/06\/21\/a-educacao-na-rede\/","title":{"rendered":"A educa\u00e7\u00e3o na rede"},"content":{"rendered":"<p>Revista Isto \u00c9, Edi\u00e7\u00e3o 1964<\/p>\n<p>Francisco Alves Filho e Rodrigo Cardoso<\/p>\n<p>Escolas e universidades aprimoram o ensino com estrat\u00e9gias como cursos online e aparelhos hi-tech nas salas de aula<\/p>\n<p>O computador entrou de tal forma na rotina dos brasileiros que \u00e9 dif\u00edcil lembrar como nos correspond\u00edamos antes dos emails. Um dos poucos setores que permanecem distantes das maravilhas tecnol\u00f3gicas foi a educa\u00e7\u00e3o, justamente onde a inova\u00e7\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria. Agora, em muitas salas do Brasil o dom\u00ednio do giz come\u00e7a a dar lugar \u00e0 era digital. Importantes iniciativas p\u00fablicas e privadas finalmente passam a utilizar o computador como ferramenta educativa e n\u00e3o mais como simples m\u00e1quina de escrever modernizada. Pesquisa da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Ensino a Dist\u00e2ncia (Abed) revela que o ano de 2006 foi fechado com cerca de 1,3 milh\u00e3o de alunos aprendendo via internet.<\/p>\n<p>Lousas eletr\u00f4nicas e recursos de realidade virtual j\u00e1 s\u00e3o usados com \u00f3timos resultados nas escolas particulares e o ensino p\u00fablico tamb\u00e9m &#8216;caiu&#8217; na rede. Al\u00e9m disso, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) est\u00e1 investindo R$ 176 milh\u00f5es para que a Universidade Aberta do Brasil crie at\u00e9 agosto 60 mil vagas para diversos cursos, todos online. Projeto lan\u00e7ado em 2005, a universidade \u00e9 um sistema nacional de ensino, ligado a 55 institui\u00e7\u00f5es federais, para levar educa\u00e7\u00e3o de n\u00edvel superior aos pontos mais distantes do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Seja para a crian\u00e7a ou o adulto, para o curso r\u00e1pido ou o mestrado de n\u00edvel internacional, a tecnologia \u00e9 apoio decisivo. O ensino a dist\u00e2ncia pela rede, por exemplo, muitas vezes representa a diferen\u00e7a entre aprender ou n\u00e3o. &#8216;Por causa do trabalho, n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de freq\u00fcentar as aulas. O aprendizado online foi a sa\u00edda&#8217;, diz o administrador de empresas carioca Thiago Freitas, 26 anos, que fez um m\u00f3dulo do MBA de Gest\u00e3o Empresarial na Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV) pelo sistema semipresencial (parte pela internet). Para estudantes de regi\u00f5es remotas, os cursos online permitem o acesso a um ensino de melhor qualidade. &#8216;A educa\u00e7\u00e3o pela internet potencializa a chance de termos um pa\u00eds mais igualit\u00e1rio&#8217;, observa Frederic Litto, presidente da Abed.<\/p>\n<p>Engana-se quem acha esse tipo de ensino menos rigoroso. Os alunos s\u00e3o acompanhados o tempo todo por tutores e, al\u00e9m das provas, participam periodicamente de chats (bate-papo) nos quais discutem as mat\u00e9rias e tamb\u00e9m s\u00e3o avaliados. A pr\u00e1tica j\u00e1 \u00e9 rotina em prestigiadas institui\u00e7\u00f5es internacionais, como Harvard e Oxford. Mas no Brasil \u00e9 fato recente. A expectativa \u00e9 que mais gente tenha acesso a esse m\u00e9todo. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Universidade Aberta do Brasil, o secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia do MEC, Carlos Eduardo Bielschowsky, acrescenta que o desafio n\u00e3o \u00e9 apenas aumentar o n\u00famero de alunos (informa\u00e7\u00f5es sobre inscri\u00e7\u00f5es pelo site www.uab. mec.gov.br). &#8216;Nossa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 multiplicar vagas sem perder a qualidade.&#8217;<\/p>\n<p>Uma boa not\u00edcia \u00e9 que n\u00e3o param de surgir novas modalidades de ensino a dist\u00e2ncia. Neste m\u00eas, o Senac S\u00e3o Paulo abre as portas de seus primeiros cursos oferecidos no Second Life, a comunidade virtual em que os internautas desenvolvem vidas paralelas. Abrir as portas, na verdade, n\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o mais adequada. O espa\u00e7o f\u00edsico adotado pelo Senac n\u00e3o tem paredes, muito menos portas &#8211; \u00e9 como se fosse um gin\u00e1sio aberto. O Senac \u00e9 a terceira institui\u00e7\u00e3o brasileira de ensino a entrar no Second Life &#8211; j\u00e1 est\u00e3o presentes as universidades Anhembi-Morumbi e Mackenzie, ambas de S\u00e3o Paulo. &#8216;N\u00f3s optamos por entrar com servi\u00e7os e n\u00e3o com a simples montagem de um espa\u00e7o&#8217;, diz Sidney Lattore, gerente de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o do Senac- SP. H\u00e1 tr\u00eas cursos abertos aos interessados, um de photoshop (programa de edi\u00e7\u00e3o de imagens) e dois de cria\u00e7\u00e3o de objetos virtuais. A id\u00e9ia \u00e9 disponibilizar tamb\u00e9m cursos que s\u00e3o dados nas depend\u00eancias f\u00edsicas do Senac, como moda e design.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica forma de a tecnologia aprimorar o ensino no Brasil. H\u00e1 uma imensa variedade de softwares e outros recursos da inform\u00e1tica que tornam as aulas mais interessantes e facilitam o acesso \u00e0 pesquisa. Isso vale tamb\u00e9m para a rede p\u00fablica. Um dos programas que procuram aproximar professores e alunos da internet \u00e9 o Sua Escola a 2000 por hora, parceria da Microsoft com o Instituto Ayrton Senna que beneficia 40 escolas brasileiras, com investimento de R$ 6 milh\u00f5es. A Escola Municipal Leonilda Montandon, em Arax\u00e1 (MG), \u00e9 uma das beneficiadas. L\u00e1, os alunos pesquisam na internet e registram seus trabalhos em um blog. &#8216;A aula ficou mais interessante&#8217;, diz J\u00falio C\u00e9sar Alves J\u00fanior, 13 anos, da terceira s\u00e9rie do ensino fundamental. Tudo observado pelos mestres. O objetivo do Instituto Ayrton Senna \u00e9 mostrar que, com esse m\u00e9todo, o professor deixa de ser o \u00fanico dono do saber. &#8216;\u00c9 como um doutorado, onde o estudante corre atr\u00e1s da informa\u00e7\u00e3o sob a supervis\u00e3o de um orientador&#8217;, explica Adriana Martinelli, coordenadora do projeto. No Ciep Mestre Mar\u00e7al, de Rio das Ostras (RJ) &#8211; que adotou o Sua Escola como pol\u00edtica p\u00fablica em 2004 -, a professora de geografia Adriana de Souza Lopes v\u00ea mudan\u00e7as comportamentais. &#8216;Os alunos perderam a timidez e passaram a interagir mais&#8217;, avalia. O melhor indicador, por\u00e9m, \u00e9 a taxa de aprova\u00e7\u00e3o dos estudantes ligados ao Sua Escola: 93,2% em 2006.<\/p>\n<p>Como era de se esperar, os estudantes dos col\u00e9gios privados est\u00e3o bem \u00e0 frente. Alguns disp\u00f5em de recursos de ponta, um verdadeiro Matrix educacional. O Objetivo, de S\u00e3o Paulo, recorre \u00e0 realidade virtual para estimular a garotada. Um dos aparelhos preferidos \u00e9 o skate voador. A base \u00e9 acoplada a um simulador de movimentos. O adolescente sobe no skate e usa \u00f3culos eletr\u00f4nicos que fazem uma &#8216;viagem&#8217; pelas ruas paulistanas de acordo com a manobra executada. Assim o aluno aprende, de modo muito mais atraente, no\u00e7\u00f5es de geografia, como relevo, vegeta\u00e7\u00e3o e clima. &#8216;\u00c9 muito legal. Mistura aventura radical com aprendizado&#8217;, vibra Rafaella Tomaselli, 13 anos.<\/p>\n<p>Mesmo para as aulas de portugu\u00eas a internet pode trazer benef\u00edcios. Muita gente reclama que a linguagem dos adolescentes em suas conversas na rede mundial de computadores est\u00e1 aniquilando o idioma &#8211; mania que, em geral, n\u00e3o avan\u00e7a para as reda\u00e7\u00f5es escolares. Mas o computador pode ajudar, se o professor quiser. Foi essa a decis\u00e3o de Ana\u00eddes Maria da Silva, do Col\u00e9gio Humboldt, em S\u00e3o Paulo. Ela resolveu aproveitar uma viagem que a turma fez para Paranapiacaba (antiga vila localizada na Serra do Mar) e incentivou os alunos a criar um site para postar fotos e poesias com um olhar liter\u00e1rio sobre a cidade. Em portugu\u00eas correto, ressalte-se. \u00c9 uma boa estrat\u00e9gia. Stefanie Panza, 17 anos, ganhou apoio da professora para registrar em um blog as mais de 100 poesias que j\u00e1 escreveu. &#8216;\u00c9 um laborat\u00f3rio para um livro no futuro&#8217;, conta a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Para o ensino brasileiro, o futuro est\u00e1 come\u00e7ando agora, como indica o crescimento do uso da inform\u00e1tica nas escolas. \u00c9 o caso das chamadas lousas digitais &#8211; sistema de software que projeta na parede o conte\u00fado das aulas. &#8216;Estamos no Brasil h\u00e1 nove anos e vendemos tr\u00eas mil unidades do produto. Metade foi vendida somente no \u00faltimo ano&#8217;, contabiliza Claudia Scheiner, diretora-geral da fabricante Smart Technologies. Uma das escolas que adotaram a lousa \u00e9 o Col\u00e9gio Ciman, de Bras\u00edlia. &#8216;O instrumento faz com que o aluno participe mais ativamente&#8217;, diz o diretor Mark Anderson.<\/p>\n<p>Com tudo isso, uma d\u00favida paira no ar. \u00c9 sabido que o Brasil enfrenta um s\u00e9rio problema: a falta de computadores. Por\u00e9m, o rec\u00e9m-lan\u00e7ado Plano de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o do governo federal pretende zerar esse d\u00e9ficit. Est\u00e3o previstos gastos de R$ 650 milh\u00f5es para instalar computadores na rede p\u00fablica. Em um pa\u00eds onde os professores ganham t\u00e3o mal e s\u00e3o pouco valorizados, h\u00e1 quem critique o plano e considere que as m\u00e1quinas se tornaram mais importantes que os mestres. Os especialistas n\u00e3o concordam. &#8216;O professor continua sendo a base. Com esses recursos ele vai poder fazer o aluno experimentar mais, ousar mais, achar novas solu\u00e7\u00f5es&#8217;, diz a professora W\u00e2nia Clemente de Castro, coordenadora do programa S\u00e9culo XXI, da Prefeitura do Rio. Segundo o senador Cristovam Buarque, ex-ministro da Educa\u00e7\u00e3o, professor \u00e9 cabe\u00e7a, cora\u00e7\u00e3o e bolso. &#8216;Bolso bem remunerado, cora\u00e7\u00e3o bem dedicado e cabe\u00e7a bem informada. O computador tem de estar na cabe\u00e7a dele&#8217;, avisa (leia mais ao lado). Al\u00e9m disso, os mestres devem entender que as pessoas vivem ligadas \u00e0 internet. &#8216;Eles t\u00eam de falar a l\u00edngua do aluno&#8217;, recomenda Ivanise Santos, gerente do Centro de Tecnologia e Gest\u00e3o Educacional do Senac Rio. Afinado com esses novos recursos interativos, o professor cumprir\u00e1 com mais efici\u00eancia a tarefa de ensinar.<\/p>\n<p>OS EDUCADORES DO FUTURO<\/p>\n<p>Ex-ministro da Educa\u00e7\u00e3o, o senador Cristovam Buarque considera que a entrada do computador nas institui\u00e7\u00f5es de ensino exige um novo perfil de professor, mais ligado aos recursos da modernidade. Ele acredita que a sala de aula ter\u00e1 tr\u00eas profissionais: o educador, o programador e o especialista em telecomunica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>ISTO\u00c9 &#8211; Quando foi criado o quadro- negro?<\/p>\n<p>Cristovam Buarque &#8211; O professor escoc\u00eas James Pillans inventou o quadro- negro no s\u00e9culo XVIII. Foi o primeiro grande salto da educa\u00e7\u00e3o. Com isso foi poss\u00edvel colocar 70 pessoas em uma sala. Antes, voc\u00ea dava discurso para muitos, mas aula mesmo era para poucos. O computador traz o segundo salto. Em um quadro-negro, quem fala de sistema solar mostra Marte num lugar, V\u00eanus em outro. Com o computador, voc\u00ea p\u00f5e isso em tr\u00eas dimens\u00f5es e em movimento. O computador exige um novo tipo de profissional. O professor do meu tempo vai desaparecer. Ele n\u00e3o ficar\u00e1 mais sozinho. Tr\u00eas pessoas ir\u00e3o elaborar a aula: aquele que chamamos de professor, algu\u00e9m que entenda de programa\u00e7\u00e3o para colocar no computador o que o educador quer ensinar, e um terceiro, da \u00e1rea de telecomunica\u00e7\u00f5es, para espalhar isso no mundo.<\/p>\n<p>ISTO\u00c9 &#8211; A bagagem acumulada pelo professor fica obsoleta com a chegada do computador na escola?<\/p>\n<p>Buarque &#8211; O menino que navegou \u00e0 noite na internet chega na aula, de manh\u00e3, sabendo de coisas que o professor desconhece. O ator principal n\u00e3o \u00e9 mais o professor. S\u00e3o o professor, o aluno e a m\u00eddia. Ele n\u00e3o \u00e9 mais o dono do saber, nem da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>ISTO\u00c9 &#8211; O aprendizado mais acelerado com o computador pede que tipo de comportamento do professor?<\/p>\n<p>Buarque &#8211; Ele tem de estar ciente que n\u00e3o sabe a \u00faltima coisa. O que ele aprendeu na universidade valeu at\u00e9 aquele dia e da\u00ed tem de aprender de novo. Segundo: precisa compreender que o aluno pode estar fazendo coisas que ele n\u00e3o domina. Terceiro: reconhecer seus limites, se n\u00e3o for capaz de usar os recursos novos. O professor que simplesmente n\u00e3o quer usar o computador \u00e9 como um m\u00e9dico que prefere n\u00e3o usar uma tomografia computadorizada. O professor tem de aprender a mexer no computador.<\/p>\n<p>ISTO\u00c9 &#8211; Somente colocar computador na sala de aula resolve?<\/p>\n<p>Buarque &#8211; N\u00e3o adianta. Hoje, se voc\u00ea forrar de computadores uma escola, eles ser\u00e3o roubados em poucos dias. N\u00e3o h\u00e1 estrutura para receb\u00ea-los. Basta dizer que h\u00e1 gente na escola sem luz! Defendo que se use o chamado computador &#8216;burro&#8217;. Ele n\u00e3o \u00e9 completo: sozinho n\u00e3o funciona. Tem de conect\u00e1-lo a uma central de processamento de dados. Voc\u00ea liga e diz: &#8216;Quero dar uma aula sobre sistema solar.&#8217; A\u00ed, recebe um endere\u00e7o na internet e pronto. Voc\u00ea tem o computador em um terminal, que o conecta \u00e0 central. Uma vantagem \u00e9 que as pessoas n\u00e3o o roubam porque, sozinho, n\u00e3o tem valor. Outra \u00e9 que voc\u00ea tem acesso a todos os softwares que est\u00e3o nesse banco de dados. N\u00e3o precisa compr\u00e1-los.\n <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revista Isto \u00c9, Edi\u00e7\u00e3o 1964 Francisco Alves Filho e Rodrigo Cardoso Escolas e universidades aprimoram o ensino com estrat\u00e9gias como cursos online e aparelhos hi-tech nas salas de aula O computador entrou de tal forma na rotina dos brasileiros que \u00e9 dif\u00edcil lembrar como nos correspond\u00edamos antes dos emails. 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