{"id":1199,"date":"2007-12-13T00:00:00","date_gmt":"2007-12-13T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ascom.ufla.br\/site\/index.php\/2007\/12\/obstaculos-ao-dialogo-entre-escola-e-pais\/"},"modified":"2007-12-13T00:00:00","modified_gmt":"2007-12-13T00:00:00","slug":"obstaculos-ao-dialogo-entre-escola-e-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/2007\/12\/13\/obstaculos-ao-dialogo-entre-escola-e-pais\/","title":{"rendered":"Obst\u00e1culos ao di\u00e1logo entre escola e pais"},"content":{"rendered":"<p>O Estado de S\u00e3o Paulo, 13\/12\/07<\/p>\n<p>Maria Alice Setubal * <\/p>\n<p>O an\u00fancio de planos de governos, a pol\u00eamica sobre o grande absente\u00edsmo de professores da rede p\u00fablica de S\u00e3o Paulo e a divulga\u00e7\u00e3o dos dados sobre exames oficiais de avalia\u00e7\u00e3o reacenderam o debate sobre a qualidade do nosso ensino, especialmente o da escola p\u00fablica.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o seja uma novidade, a participa\u00e7\u00e3o dos pais &#8211; no apoio \u00e0 gest\u00e3o escolar ou no acompanhamento do desempenho de seus filhos &#8211; tem sido apontada por recentes estudos como um dos elementos fundamentais para alcan\u00e7armos a melhoria da educa\u00e7\u00e3o no Brasil. Entretanto, essas mesmas pesquisas afirmam que a maioria dos pais est\u00e1 preocupada apenas com a freq\u00fc\u00eancia \u00e0 escola, e n\u00e3o com a qualidade do ensino.<\/p>\n<p>Uma vez que os pais sabem quais s\u00e3o as melhores escolas de seu bairro e t\u00eam clareza da import\u00e2ncia de que seu filho deva saber se expressar oralmente, ler e escrever com desenvoltura e aprender a lidar com o computador, n\u00e3o faz sentido afirmar que n\u00e3o se preocupam com a qualidade do ensino oferecido pela escola.<\/p>\n<p>Se, de fato, buscamos compreender o comportamento dos pais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escola, torna-se necess\u00e1ria uma an\u00e1lise mais aprofundada sobre as dificuldades de relacionamento e as diferen\u00e7as de culturas entre a escola, os alunos e suas respectivas fam\u00edlias, especialmente nas regi\u00f5es de maior vulnerabilidade social.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias do Centro de Estudos e Pesquisas em Educa\u00e7\u00e3o, Cultura e A\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria (Cenpec) e da Funda\u00e7\u00e3o Tide Setubal &#8211; tanto na implementa\u00e7\u00e3o de projetos educacionais quanto comunit\u00e1rios &#8211; apontam, por exemplo, que a equipe escolar demonstra uma apatia e uma sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia preocupantes, sobretudo na rede p\u00fablica dos grandes centros urbanos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de percorrer o caminho f\u00e1cil de desresponsabilizar os pais e jogar todo o peso sobre os educadores. Muito menos de propor a reinven\u00e7\u00e3o da roda, sugerindo que os pais sejam chamados mais vezes \u00e0 escola. Afinal, os pais &#8211; geralmente as m\u00e3es, que s\u00e3o as que comparecem \u00e0s reuni\u00f5es &#8211; est\u00e3o saturados de tanto ouvir a mesma a ladainha dos educadores, que se resume a reclama\u00e7\u00f5es sobre o comportamento de seus filhos e de como n\u00e3o sabem educ\u00e1-los para os padr\u00f5es da vida escolar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m parece claro que a escola, sozinha, n\u00e3o resolver\u00e1 todos os seus problemas. \u00c9 importante que se articule com outras inst\u00e2ncias, como os Conselhos Tutelares, as ONGs, as bibliotecas e os clubes comunit\u00e1rios, para que possa dar conta da educa\u00e7\u00e3o em tempo integral.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 sabido, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 suficiente para explicar de forma satisfat\u00f3ria a aus\u00eancia de participa\u00e7\u00e3o dos pais. \u00c9 preciso ir mais fundo e verificar que fatores obstaculizam o di\u00e1logo com a escola. Destacarei aqui aqueles que considero decisivos.<\/p>\n<p>Um primeiro aspecto a ser observado s\u00e3o as diferen\u00e7as entre a cultura letrada e a cultura oral. A escola \u00e9 por excel\u00eancia o local da cultura letrada. Todas as suas atividades, especialmente as aulas, s\u00e3o norteadas por essa l\u00f3gica, muitas vezes linear e de sacraliza\u00e7\u00e3o do texto escrito. Essa concep\u00e7\u00e3o acaba por impor barreiras n\u00e3o s\u00f3 aos alunos, mas principalmente aos seus pais. Isso porque a l\u00f3gica da escrita pressup\u00f5e conhecimento pr\u00e9vio, abstra\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o do pensamento e planejamento, que n\u00e3o encontram eco numa popula\u00e7\u00e3o movida pela cultura oral, em que o pensamento \u00e9 menos estruturado, mais extensivo, concreto e repetitivo em suas explana\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Outro aspecto relevante diz respeito \u00e0s pr\u00f3prias caracter\u00edsticas da escola como local da hierarquia, da ordem, da presen\u00e7a do Estado. Portanto, da legalidade e da burocracia. S\u00e3o dimens\u00f5es inerentes \u00e0 escola. Ora, especialmente nas regi\u00f5es de alta vulnerabilidade social, essa escola tem de dialogar cotidianamente com comunidades que vivem numa t\u00eanue fronteira entre o l\u00edcito e o il\u00edcito, o legal e o ilegal &#8211; moradia sem documenta\u00e7\u00e3o, luz, \u00e1gua e TV a cabo que chegam via \u00b4gato\u00b4, v\u00ednculo empregat\u00edcio prec\u00e1rio e informal. Isso sem falarmos na conviv\u00eancia amedrontadora com o tr\u00e1fico de drogas. Ou seja, mundos regidos por ordens opostas.<\/p>\n<p>Esse cotidiano de vulnerabilidade socioecon\u00f4mica dos pais nos conduz a outro aspecto de extrema import\u00e2ncia: a descren\u00e7a nas pol\u00edticas p\u00fablicas, a falta de esperan\u00e7a, a hipersensibilidade e o ressentimento decorrentes da exclus\u00e3o social de que s\u00e3o v\u00edtimas. Da\u00ed um apego maior ao presente decorrente da necessidade de sobreviv\u00eancia, na qual n\u00e3o cabe planejamento ou vis\u00e3o de futuro. Isso inviabiliza que os pais possam ouvir, concentrar-se e opinar sobre quest\u00f5es muito gerais, abstratas.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, h\u00e1 uma dupla barreira relativa ao curr\u00edculo. De um lado, a dist\u00e2ncia entre o que se ensina e a realidade da sociedade contempor\u00e2nea, do mundo vivido pelos alunos. Do outro, a falta de incorpora\u00e7\u00e3o ao curr\u00edculo das hist\u00f3rias, dos valores, da arte e dos costumes da comunidade onde a escola se insere. Com isso, o aluno e seus pais n\u00e3o se reconhecem nem se identificam com os conte\u00fados transmitidos pela escola. Ao contr\u00e1rio, sentem-se mais uma vez exclu\u00eddos, j\u00e1 que seu universo cultural n\u00e3o \u00e9 levado em conta.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o apenas alguns aspectos que dificultam, e muito, o di\u00e1logo entre a escola e os pais. A cria\u00e7\u00e3o de conselhos escolares e associa\u00e7\u00f5es de pais atuantes s\u00e3o essenciais, mas n\u00e3o suficientes para superarmos esses obst\u00e1culos. Enfrentar as quest\u00f5es apontadas n\u00e3o \u00e9 tarefa simples. Entretanto, se n\u00e3o forem levadas em considera\u00e7\u00e3o, seguiremos &#8211; escola, educadores e estudiosos &#8211; a reclamar a aus\u00eancia de participa\u00e7\u00e3o dos pais sem entender o que gera esse fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>* Maria Alice Setubal, soci\u00f3loga, mestre em Ci\u00eancias Pol\u00edticas pela USP e doutora em Psicologia da Educa\u00e7\u00e3o pela PUC-SP, diretora-presidente do Cenpec, fundadora e presidente da Funda\u00e7\u00e3o Tide Setubal, foi consultora do Unicef na \u00e1rea educacional para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Estado de S\u00e3o Paulo, 13\/12\/07 Maria Alice Setubal * O an\u00fancio de planos de governos, a pol\u00eamica sobre o grande absente\u00edsmo de professores da rede p\u00fablica de S\u00e3o Paulo e a divulga\u00e7\u00e3o dos dados sobre exames oficiais de avalia\u00e7\u00e3o reacenderam o debate sobre a qualidade do nosso ensino, especialmente o da escola p\u00fablica. 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