{"id":1150,"date":"2007-12-03T00:00:00","date_gmt":"2007-12-03T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ascom.ufla.br\/site\/index.php\/2007\/12\/qualquer-coisa-e-melhor-que-a-escola-formal-de-hoje-pior-nao-fica\/"},"modified":"2007-12-03T00:00:00","modified_gmt":"2007-12-03T00:00:00","slug":"qualquer-coisa-e-melhor-que-a-escola-formal-de-hoje-pior-nao-fica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/2007\/12\/03\/qualquer-coisa-e-melhor-que-a-escola-formal-de-hoje-pior-nao-fica\/","title":{"rendered":"Qualquer coisa \u00e9 melhor que a escola formal de hoje; pior n\u00e3o fica"},"content":{"rendered":"<p>Folha de S\u00e3o Paulo, 30\/11\/07<\/p>\n<p>Cl\u00e1udia Collucci<\/p>\n<p>Para psic\u00f3loga, o atual modelo de ensino est\u00e1 falido ; escola se preocupa que alunos aprendam conte\u00fado em vez de priorizar o conhecimento<\/p>\n<p>O ATUAL MODELO de ensino est\u00e1 falido e parte dessa situa\u00e7\u00e3o deve-se ao fato de a escola ter se aproximado tanto do estilo de vida familiar que acabou adotando um modo administrativo leigo em detrimento de condutas educacionais profissionais, baseada em teorias e metodologias.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 da psic\u00f3loga e consultora em educa\u00e7\u00e3o Rosely Say\u00e3o, durante sabatina realizada ontem pela Folha. Para ela, &#8216;qualquer coisa&#8217; \u00e9 melhor do que a escola formal de hoje. &#8216;Pior que est\u00e1 n\u00e3o fica. \u00c9 preciso encontrar alternativas ao ensino falido existente em 98% das escolas privadas e p\u00fablicas.&#8217;<\/p>\n<p>Para a psic\u00f3loga, a aproxima\u00e7\u00e3o entre escolas e fam\u00edlias est\u00e1 fazendo com que as crian\u00e7as tenham um tipo de educa\u00e7\u00e3o muito parecida. &#8216;Hoje, professores e pais pensam e agem de maneira muito semelhante. E os pais est\u00e3o desnorteados porque as refer\u00eancias educacionais se multiplicaram.&#8217;<\/p>\n<p>ESCOLA<br \/>\nA escola hoje n\u00e3o serve para educar. Nem para educar para vida p\u00fablica e muito menos para educar para a rela\u00e7\u00e3o de conhecimento. A escola est\u00e1 mais preocupada que seus alunos aprendam conte\u00fado do que com a postura que deve ter para se relacionar com o conhecimento. At\u00e9 o quinto ano do ensino fundamental, a gente deveria ensinar o que \u00e9 ser aluno, o que \u00e9 ter colegas, o que \u00e9 agir coletivamente, quais as posturas f\u00edsicas e mentais para se relacionar com o conhecimento. Hoje a gente tem uma grande dificuldade de trabalhar isso. Espera-se que o aluno chegue sabendo o que \u00e9 ser aluno. Eles chegam filhos e a escola continua a trat\u00e1-los como filhos.<\/p>\n<p>A escola se identificou muito com a fam\u00edlia e perdeu seu car\u00e1ter profissional. Ela se molda aos seus alunos e aos pais de seus alunos. Tem dificuldade de estabelecer uma conduta profissional baseada em teorias e metodologias e vai muito no agir educativo dos pais, que s\u00e3o leigos, e a escola n\u00e3o deveria ser leiga. Hoje, professores e pais pensam e agem de maneira muito semelhante.<\/p>\n<p>VIDA FAMILIAR<br \/>\n\u00c9 uma grande bobagem tentar adequar a escola ao estilo de vida familiar. Isso restringe muito os contatos, as rela\u00e7\u00f5es, o tipo de vis\u00e3o que a crian\u00e7a tem do mundo. Restringe muito a ponto de impedir uma vida democr\u00e1tica, no ponto de vista das rela\u00e7\u00f5es. Cada vez mais as crian\u00e7as ficam submetidas a um tipo de educa\u00e7\u00e3o muito parecida. A partir dos anos 90, a escola come\u00e7ou a anunciar que ela era a segunda casa, a segunda fam\u00edlia dos alunos. Se uma fam\u00edlia j\u00e1 d\u00e1 trabalho, imagine duas. A grande quest\u00e3o \u00e9: n\u00f3s vamos dar chance para as crian\u00e7as aprenderem a conviver com as diferen\u00e7as ou vamos cada vez mais coloc\u00e1-las em clubes privados onde todos s\u00e3o semelhantes? Na busca de uma vida mais democr\u00e1tica, colocar a crian\u00e7a em uma escola onde h\u00e1 diversidade \u00e9 o primeiro ponto. A fun\u00e7\u00e3o da escola \u00e9 fazer a passagem da vida privada para a vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>SELE\u00c7\u00c3O DE ALUNOS<br \/>\nSele\u00e7\u00e3o de alunos \u00e9 um absurdo. Na verdade, \u00e9 selecionar o perfil de aluno que cabe dentro da minha escola, \u00e9 preconceituoso. O aluno diferente, n\u00e3o importa a diferen\u00e7a que seja, ele n\u00e3o cabe dentro desse clube. Por lei, essa sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 permitida, mas as escolas continuam fazendo e os pais se submetem. Acho uma loucura. A gente j\u00e1 v\u00ea no presente algumas conseq\u00fc\u00eancias disso. A vida p\u00fablica \u00e9 cada vez mais privada, jovens adultos evitando o contato das pessoas nas ruas.<\/p>\n<p>SUPERPROTE\u00c7\u00c3O<br \/>\nNas \u00faltimas d\u00e9cadas, os pais se incumbiram de uma miss\u00e3o imposs\u00edvel, que \u00e9 proteger os filhos da vida. Nesta busca de prote\u00e7\u00e3o, t\u00eam cometido equ\u00edvocos s\u00e9rios, que comprometem o objetivo fundamental da educa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 viver com autonomia. Os pais ensinam os filhos que eles t\u00eam muitos direitos e poucos deveres.<\/p>\n<p>Tra\u00e7ar um equil\u00edbrio entre o cuidar e proteger \u00e9 a quest\u00e3o. N\u00e3o adianta a gente tentar proteger, proteger, porque na hora que eles saem, e eles saem queira a gente ou n\u00e3o, esse \u00e9 o mundo em que eles v\u00e3o viver. O mundo est\u00e1 perigoso, mas sempre esteve perigoso para os pais. \u00c9 claro que o mundo mudou muito. Mas devo ensinar a saber reconhecer os riscos, a saber se proteger sem revidar etc.<\/p>\n<p>SEXUALIDADE<br \/>\nQuando chega na adolesc\u00eancia, o grande acontecimento da vida \u00e9 a descoberta da sexualidade. O jovem tem corpo de adulto e, portanto, pode desfrutar desse mundo da sexualidade. A id\u00e9ia que fica \u00e9 que eu desfruto, mas, se eu tiver um problema antes ou depois, algu\u00e9m resolve para mim. \u00c9 fundamental que cada um de n\u00f3s tenha uma vida sexual saud\u00e1vel. Mas h\u00e1 o limite entre o privado e o p\u00fablico, o que diz respeito \u00e0 intimidade e o que diz respeito ao conv\u00edvio social. Por isso, \u00e9 preciso demarcar bem essa fronteira. A fun\u00e7\u00e3o dos pais n\u00e3o \u00e9 entrar nos segredos dos filhos. Ali\u00e1s, tem coisas que \u00e9 melhor n\u00e3o saber mesmo.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 falta de informa\u00e7\u00e3o [sobre sexo, gravidez ou doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis]. O problema \u00e9 que eles n\u00e3o t\u00eam maturidade para usar essas informa\u00e7\u00f5es. Isso revela que est\u00e3o chegando na vida sexual de modo absolutamente inconseq\u00fcente porque s\u00e3o imaturos e porque h\u00e1 adultos respondendo por eles.<\/p>\n<p>O jovem v\u00ea a sexualidade como performance corporal, t\u00eam dificuldade de encarar uma rela\u00e7\u00e3o sem tomar um comprimido tipo Viagra ou Cialis. Achei que fosse inseguran\u00e7a, mas descobri que era garantia de divers\u00e3o por horas, sem perder a ere\u00e7\u00e3o. \u00c9 um parque de divers\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mais o contato de proximidade de intimidade com uma pessoa.<\/p>\n<p>CONSUMO<br \/>\nO ideal de consumo hoje \u00e9 maior do que qualquer coisa, provoca ang\u00fastia, provoca t\u00e9dio tamb\u00e9m. O ideal de consumo faz com que a pessoa queira consumir e n\u00e3o necessariamente desfrutar daquilo que conquistou. Ele quer, quer e depois que consome n\u00e3o sabe o que fazer com aquilo. Cresce assustadoramente o n\u00famero de jovens que querem entrar na faculdade e depois n\u00e3o sabem o fazer com a faculdade, trocam de curso, abandonam. \u00c9 mais dif\u00edcil viver hoje porque n\u00e3o h\u00e1 adultos que estimulem essa vis\u00e3o cr\u00edtica do jovem. Eles n\u00e3o pensam criticamente e tamb\u00e9m adoecem facilmente. Temos muitos jovens com depress\u00e3o, o \u00edndice de suic\u00eddios tem aumentado muito entre os jovens adultos. O grau de insatisfa\u00e7\u00e3o com a vida \u00e9 muito grande. Eu devo isso ao ideal de individualismo.<\/p>\n<p>MEDICAMENTOS<br \/>\n\u00c9 um outro ideal. Nossa sociedade est\u00e1 absolutamente submetida \u00e0 medicaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 mais um elemento que leva a essa passividade na vida, como se as coisas se resolvessem por mim. Hoje, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, h\u00e1 escolas que chamam os pais e os orientam dar ritalina [medica\u00e7\u00e3o usada para d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o com hiperatividade] aos seus filhos. \u00c9 como se falassem: &#8216;Acalma o seu filho para eu poder trabalhar bem enquanto ele for meu aluno.&#8217;<br \/>\nAcho que a medicina ainda vai se redimir dessa medicaliza\u00e7\u00e3o. Hoje h\u00e1 muito est\u00edmulo \u00e0 hiperatividade. J\u00e1 que o mundo estimula, vamos conviver com isso e ensinar nossas crian\u00e7as a controlar isso.<\/p>\n<p>PAIS<br \/>\nOs livros de auto-ajuda subestimam a capacidade dos pais. N\u00e3o acho que os pais estejam perdidos, as escolas sim est\u00e3o perdidas. Os pais est\u00e3o desnorteados. Quando eu fui educada, todos os pais compartilhavam do mesmo norte. Hoje as refer\u00eancias se multiplicaram. Cada pai olha como vai educar seu filho e v\u00ea m\u00faltiplas refer\u00eancias. Eles ainda acreditam que h\u00e1 norte fora deles, mas o norte est\u00e1 neles. N\u00e3o considero os pais perdidos. Eles se dedicam mais \u00e0 educa\u00e7\u00e3o dos filhos do que as escolas que os recebem.<\/p>\n<p>LIMITE<br \/>\nEu usei muito essa palavra e hoje sou contra o uso dela na educa\u00e7\u00e3o. Todo mundo usava essa palavra e n\u00e3o falava-se em desobedi\u00eancia. Recebi um dia uma m\u00e3e desesperada porque a filha, de tr\u00eas anos, n\u00e3o tem limite algum, n\u00e3o aceita a autoridade dela. Se a gente aceita que o problema \u00e9 deles, a gente ficar\u00e1 livre de qualquer responsabilidade. Crian\u00e7a n\u00e3o precisa de limite, precisa \u00e9 de adulto. Eles n\u00e3o aprendem os limites porque, n\u00f3s adultos, n\u00e3o exercemos bem nosso papel.<\/p>\n<p>CASTIGO<br \/>\nCastigo em crian\u00e7as com menos de cinco anos eu n\u00e3o entendo. Quando a crian\u00e7a com menos de cinco anos faz ou n\u00e3o faz o que deveria fazer \u00e9 porque o adulto falhou. Nessa idade, a crian\u00e7a n\u00e3o compreende o castigo como fruto do comportamento que ela teve. A partir dos seis, sete anos, \u00e9 poss\u00edvel coloc\u00e1-lo de castigo mas n\u00e3o como mera puni\u00e7\u00e3o com sofrimento. Mas como demonstra\u00e7\u00e3o de que tudo o que voc\u00ea faz, traz conseq\u00fc\u00eancias, \u00e0s vezes boas, \u00e0s vezes n\u00e3o. Em geral, hoje o castigo \u00e9 dado muito no momento em que os pais perdem o controle das emo\u00e7\u00f5es e depois o sofrimento dos filhos faz com que os pais afrouxem o castigo. A gente erra do come\u00e7o ao fim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Folha de S\u00e3o Paulo, 30\/11\/07 Cl\u00e1udia Collucci Para psic\u00f3loga, o atual modelo de ensino est\u00e1 falido ; escola se preocupa que alunos aprendam conte\u00fado em vez de priorizar o conhecimento O ATUAL MODELO de ensino est\u00e1 falido e parte dessa situa\u00e7\u00e3o deve-se ao fato de a escola ter se aproximado tanto do estilo de vida &hellip; <a href=\"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/2007\/12\/03\/qualquer-coisa-e-melhor-que-a-escola-formal-de-hoje-pior-nao-fica\/\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Qualquer coisa \u00e9 melhor que a escola formal de hoje; pior n\u00e3o fica<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1150","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1150","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1150"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1150\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1150"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}