{"id":1097,"date":"2007-11-20T00:00:00","date_gmt":"2007-11-20T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ascom.ufla.br\/site\/index.php\/2007\/11\/acesso-a-universidade-transforma-a-vida-de-cotistas\/"},"modified":"2007-11-20T00:00:00","modified_gmt":"2007-11-20T00:00:00","slug":"acesso-a-universidade-transforma-a-vida-de-cotistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/2007\/11\/20\/acesso-a-universidade-transforma-a-vida-de-cotistas\/","title":{"rendered":"Acesso \u00e0 universidade transforma a vida de cotistas"},"content":{"rendered":"<p>Portal Universia, 19\/11\/07<\/p>\n<p>Lilian Burgardt<\/p>\n<p>Para estudantes negros, ingresso ao Ensino Superior significa vit\u00f3ria <\/p>\n<p>Um movimento em prol da inser\u00e7\u00e3o do negro na universidade come\u00e7ou a crescer e se expandir no Brasil recentemente. Em v\u00e1rias partes do pa\u00eds, Institui\u00e7\u00f5es de Ensino Superior passaram a adotar o sistema de cotas afim de facilitar o acesso destes estudantes, al\u00e9m de outras iniciativas terem ganho espa\u00e7o e vida, como, por exemplo, a cria\u00e7\u00e3o de universidades cuja principal miss\u00e3o \u00e9 a inser\u00e7\u00e3o do negro no terceiro grau e o debate de sua marginaliza\u00e7\u00e3o na sociedade brasileira, com o objetivo de resgatar a identidade destes cidad\u00e3os. <\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se pode medir com estat\u00edsticas fi\u00e9is se tais a\u00e7\u00f5es j\u00e1 surtiram efeitos significativos no que diz respeito \u00e0 inclus\u00e3o dos negros no Brasil. Para estes estudantes, por\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a inser\u00e7\u00e3o abriu portas e, agora, \u00e9 poss\u00edvel enxergar um futuro melhor, com mais esperan\u00e7a. Esperan\u00e7a de que, daqui para frente, estat\u00edsticas como a publicada no mais recente estudo do Dieese (Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos) sobre &#8216;Escolaridade e Trabalho: Desafios para a Popula\u00e7\u00e3o Negra nos Mercados de Trabalho Metropolitanos&#8217; (link pdf) possam mudar. O estudo apontou uma remunera\u00e7\u00e3o at\u00e9 35% menor de negros com Ensino Superior, al\u00e9m de m\u00e9dia cinco vezes menor de negros com 3\u00ba grau em rela\u00e7\u00e3o aos brancos. As regi\u00f5es pesquisadas foram: Belo Horizonte, Salvador, Recife, Porto Alegre, S\u00e3o Paulo e Distrito Federal.<\/p>\n<p>Esta mudan\u00e7a de cen\u00e1rio \u00e9 o que deseja a estudante do curso de Administra\u00e7\u00e3o da Unipalmares (Universidade Zumbi dos Palmares), em S\u00e3o Paulo, K\u00e1tia Botelho, 22 anos. &#8216;Realizei o sonho de ser a primeira da fam\u00edlia a entrar na universidade. Prestei vestibular v\u00e1rias vezes, mas embora fosse a melhor de minha turma na escola estadual, n\u00e3o conseguia uma vaga nos grandes vestibulares das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e via meu sonho sempre adiado. Hoje, \u00e9 uma vit\u00f3ria estar no Ensino Superior. Conquista que espero poder ver realizada por outros estudantes como eu&#8217;, afirma ela.<\/p>\n<p>K\u00e1tia ingressou na faculdade em 2004, e hoje, colhe os frutos de ter tido acesso ao Ensino Superior e apoio para crescer e se desenvolver. Por meio de um acordo da Unipalmares com empresas privadas, a estudante teve a oportunidade de estagiar numa grande companhia e, hoje, ter sido contratada. &#8216;N\u00e3o poderia estar mais feliz. Quando entrei na universidade ganhava pouco mais do que o valor da mensalidade do curso. Tive dificuldade para me adaptar. Assim como qualquer estudante que veio do ensino p\u00fablico, muitas vezes, pensei que n\u00e3o ia conseguir. Esse resultado \u00e9 uma grande vit\u00f3ria pessoal&#8217;, disse K\u00e1tia emocionada logo ap\u00f3s ter recebido a not\u00edcia da efetiva\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Para a estudante, a contrata\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um dos benef\u00edcios que o Ensino Superior proporcionou. Para ela, tamb\u00e9m \u00e9 preciso destacar o complemento da forma\u00e7\u00e3o com discuss\u00f5es sobre a inser\u00e7\u00e3o social do negro, sua participa\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho e a reconstru\u00e7\u00e3o de identidade, temas trabalhados na institui\u00e7\u00e3o afim de resgatar a cidadania destes jovens. &#8216;A universidade me ensinou a ter orgulho de minhas ra\u00edzes e a valorizar a hist\u00f3ria de um povo que historicamente \u00e9 marginalizado. Na universidade, ao contr\u00e1rio do que a m\u00eddia prega, a gente ouve que o negro n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o \u00b4pobre coitado\u00b4 condicionado a ocupar sub-empregos, mas que temos potencial para muito mais&#8217;, explica. <\/p>\n<p>\u00c9 essa a mensagem que tamb\u00e9m foi passada para a estudante Cl\u00e1udia Regina Machado, 37 anos, que ingressou na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) pelo sistema de cotas. &#8216;Hoje, quando falo com meus tr\u00eas filhos e com o resto da crian\u00e7ada da comunidade sobre universidade \u00e9 como se esse fosse um universo tang\u00edvel e do qual eles querem fazer parte. N\u00e3o \u00e9 mais &#8216;a universidade&#8217; como se fosse imposs\u00edvel chegar l\u00e1&#8217;, conta. Em suas conversas em casa e com os amigos, ela comenta que o fato de ter ingressado no Ensino Superior \u00e9 motivo de orgulho e serve de espelho para os mais pr\u00f3ximos. &#8216;Quando conto o que acontece em sala de aula, as discuss\u00f5es, eles ficam interessados e, agora, discutimos em casa sobre qual a carreira que eles v\u00e3o seguir. N\u00e3o h\u00e1 nada mais gratificante do que saber que sua atitude motiva outras pessoas a querer melhorar&#8217;, diz Cl\u00e1udia. <\/p>\n<p>Batalhadora, a estudante decidiu voltar aos bancos escolares j\u00e1 adulta, casada e com tr\u00eas filhos. O sonho era antigo. &#8216;Sempre que passava em frente ao pr\u00e9dio da UERJ pensava: &#8216;ainda vou estudar ali, ainda vou fazer parte disso&#8217;, lembra ela. No ano em que o vestibular com regime de cotas foi instaurado, Cl\u00e1udia se inscreveu e passou em Pedagogia. &#8216;Fiquei muito emocionada, sabia que dali para frente minha vida ia mudar&#8217;, conta. Assim como a maioria do estudantes cotistas, Cl\u00e1udia fez oficinas para melhorar seu desempenho no curso. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m recebeu uma bolsa perman\u00eancia de R$ 190,00 para conseguir manter-se na universidade. &#8216;No come\u00e7o voc\u00ea tem dificuldade em tudo. Para entender a linguagem dos professores, para tirar c\u00f3pias dos materiais, para comer e para se locomover de casa para universidade. Como estudava de manh\u00e3 e fazia os refor\u00e7os \u00e0 tarde, \u00e0s vezes, ficava com fome. Quando colocaram um microondas na copa e pude trazer meu almo\u00e7o, a\u00ed sim ficou melhor&#8217;, relata. <\/p>\n<p>Hoje, Cl\u00e1udia faz parte de um grupo de inicia\u00e7\u00e3o a doc\u00eancia e ministra oficinas de apoio das quais um dia fez parte como aluna. Sua dedica\u00e7\u00e3o lhe rende, mensalmente, uma bolsa de R$ 190,00. Voc\u00ea pode se perguntar, como Cl\u00e1udia consegue se virar com menos de um sal\u00e1rio m\u00ednimo? \u00c9 a\u00ed que entra o apoio dos amigos e familiares. &#8216;Muitas vezes pensei em desistir por causa do dinheiro, das crian\u00e7as. Mas percebi que n\u00e3o podia deixar meu sonho de lado por causa das dificuldades. L\u00e1 em casa, quem banca a maior parte das contas \u00e9 meu marido, que \u00e9 vigia. As crian\u00e7as recebem o bolsa-fam\u00edlia para custear os gastos com comida e educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que \u00e9 dif\u00edcil, mas ningu\u00e9m quer que eu pare, muito pelo contr\u00e1rio, todos d\u00e3o a maior for\u00e7a. Outro dia meu marido virou para mim e disse: voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 atrasada para a aula n\u00e3o?&#8217;, recorda Cl\u00e1udia. <\/p>\n<p>Uma caracter\u00edstica que parece comum aos estudantes que fazem parte das minorias que est\u00e3o na universidade \u00e9 a solidariedade em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo. Assim como hoje Cl\u00e1udia ap\u00f3ia novos estudantes que v\u00eam \u00e0s oficinas em busca de refor\u00e7o, o estudante Wesley Pereira Granjeiro, 24 anos, que ingressou no curso de Artes Pl\u00e1sticas da UnB (Universidade de Bras\u00edlia) pelo sistema de cotas, tamb\u00e9m faz parte da assessoria de diversidade e auxilia novos estudantes ao discutir melhorias para os cotistas da UnB. Ele, que prestou o vestibular tradicional por quatro vezes seguidas sem sucesso, depois de entrar pelo programa de cotas, tem como principal tarefa na assessoria difundir este meio de ingresso para alunos da rede p\u00fablica do Distrito Federal. <\/p>\n<p>&#8216;Sem d\u00favida, entrar na universidade significou uma nova etapa em minha vida. Tive a oportunidade de me aprimorar profissionalmente e fazer parte de um mundo at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido e restrito para as pessoas que n\u00e3o vem de uma realidade carente. Esse \u00e9 um dos motivos que me fizeram ingressar no programa \u00b4cotistas nas escolas\u00b4 promovido pela assessoria de diversidade da UnB, para difundir a jovens carentes que vivem a mesma realidade que eu a chance de ingressar no Ensino Superior&#8217;, explica. <\/p>\n<p>Estagi\u00e1rio no programa desde 2005, Granjeiro recebe uma bolsa perman\u00eancia de R$ 180,00. &#8216;\u00c9 pouco, mas para quem n\u00e3o tinha nada, \u00e9 \u00f3timo. Pude comprar livros e pagar a passagem para a universidade, que s\u00e3o as maiores dificuldades de qualquer estudante sem recursos. Apesar de todos os desafios, n\u00e3o desisto da faculdade por nada. Ainda quero me formar, ser artista pl\u00e1stico e tamb\u00e9m professor para poder ensinar as pessoas que, com for\u00e7a de vontade, \u00e9 poss\u00edvel ir muito longe&#8217;, diz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Portal Universia, 19\/11\/07 Lilian Burgardt Para estudantes negros, ingresso ao Ensino Superior significa vit\u00f3ria Um movimento em prol da inser\u00e7\u00e3o do negro na universidade come\u00e7ou a crescer e se expandir no Brasil recentemente. 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