{"id":1073,"date":"2007-11-13T00:00:00","date_gmt":"2007-11-13T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ascom.ufla.br\/site\/index.php\/2007\/11\/a-escola-e-a-desigualdade\/"},"modified":"2007-11-13T00:00:00","modified_gmt":"2007-11-13T00:00:00","slug":"a-escola-e-a-desigualdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/2007\/11\/13\/a-escola-e-a-desigualdade\/","title":{"rendered":"A escola e a desigualdade"},"content":{"rendered":"<p>Correio Braziliense, 13\/11\/07<\/p>\n<p>Alain Touraine, Soci\u00f3logo <\/p>\n<p>Aquilo que uma sociedade diz da educa\u00e7\u00e3o, como \u00e9, como deveria ser, nos informa muito mais do que qualquer outro discurso acerca da natureza e dos objetivos dessa sociedade. J\u00e1 \u00e9 uma raz\u00e3o suficiente para se ler com o maior interesse os resultados do estudo dirigido por Juan Casassus, respons\u00e1vel pelo programa da Unesco sobre o estado da educa\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina e Caribe, intitulado A escola e a desigualdade, lan\u00e7ado ontem em Porto Alegre. Dever-se-ia come\u00e7ar a ler e julgar esse livro partindo dos dados comparativos que apresenta com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade da educa\u00e7\u00e3o nos diferentes pa\u00edses, no campo e na cidade, nos diferentes setores sociais etc., j\u00e1 que nos repassam resultados e an\u00e1lises percucientes e que s\u00e3o de uma qualidade nitidamente superior a tudo que se encontra \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o na atualidade. <\/p>\n<p>J. Casassus demonstra, com cifras concretas, analisadas segundo m\u00e9todos estat\u00edsticos sofisticados, que grande parte da desigualdade que se observa na escola e na sua sa\u00edda \u00e9 produzida nela mesma e n\u00e3o \u00e9 herdada das diferen\u00e7as entre as fam\u00edlias cujos filhos v\u00e3o \u00e0 escola. Tal afirma\u00e7\u00e3o repensa os debates sobre a educa\u00e7\u00e3o, obrigando a abandonar-se todas as interpreta\u00e7\u00f5es que eximem a escola de suas responsabilidades na desigualdade social, porque, \u00e9 bom que recordemos, seria a desigualdade de marcha a r\u00e9, nas fam\u00edlias e no meio social, que explicaria a desigualdade de oportunidades e de resultados t\u00e3o f\u00e1ceis de observar. <\/p>\n<p>Certamente que as diferen\u00e7as entre os meios sociais de origem determinam uma interfer\u00eancia profunda e quando se analisam de forma elaborada os dados que permitem comparar, por exemplo, escolas rurais com escolas urbanas, percebe-se que \u00e9 a desigualdade entre as fam\u00edlias o fator preponderante. Mas o que ecoa como explos\u00e3o \u00e9 que as vari\u00e1veis internas da escola t\u00eam um peso maior com respeito \u00e0 igualdade ou desigualdade do que as vari\u00e1veis exteriores a ela. <\/p>\n<p>A desigualdade aumenta em parte porque o afastamento dos professores em rela\u00e7\u00e3o a seus alunos deixa o terreno livre para a a\u00e7\u00e3o do ambiente social, o qual, como \u00e9 de se prever, \u00e9 mais favor\u00e1vel para aqueles meninos que prov\u00eam de fam\u00edlias de rendas mais altas e de maior n\u00edvel educacional se comparados com os das fam\u00edlias de parcos recursos culturais e, por isso mesmo, incapazes de ajudar o jovem a visualizar um futuro desej\u00e1vel. Entretanto, o segundo resultado sobre o qual insiste Juan Casassus \u00e9 mais preciso ainda e seu peso, alega o autor, \u00e9 mais forte do que o conjunto dos outros fatores reunidos. Trata-se da presen\u00e7a ou aus\u00eancia na escola de um ambiente emocional favor\u00e1vel ou n\u00e3o ao aprendizado. E aqui o autor nos apresenta a imagem de uma aula quase ideal na qual uma professora muito preparada transmite aos meninos o gosto pelo conhecimento e dedica o essencial de seu trabalho ao estabelecimento de boas rela\u00e7\u00f5es com os estudantes. <\/p>\n<p>Da leitura do livro inferimos que, em lugar de esperar resultados positivos de um crescimento econ\u00f4mico prolongado ou de uma a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, vemos que \u00e9 poss\u00edvel agir aqui e agora. \u00c9 poss\u00edvel melhorar os resultados de todos os pa\u00edses do continente, diminuir a desigualdade definindo as prioridades que uma sociedade deve adotar para sair da situa\u00e7\u00e3o atual, que \u00e9 duplamente perversa, objetivamente pelo baixo n\u00edvel dos resultados e, subjetivamente (ou politicamente) porque os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, como muitos outros no mundo, se negaram e ainda se negam a considerar como os principais respons\u00e1veis, para o bem ou para o mal, os sistemas escolares. <\/p>\n<p>A clareza das conclus\u00f5es, a qualidade t\u00e9cnica das an\u00e1lises, a forma como se questionam os diferentes modos de an\u00e1lises fazem do breve estudo um documento que deveria ocupar um lugar central na forma\u00e7\u00e3o dos professores e n\u00e3o somente na Am\u00e9rica Latina. Os pa\u00edses mais ricos, que s\u00e3o tamb\u00e9m os mais orgulhosos de seu sistema educacional, tamb\u00e9m t\u00eam tanto que aprender com Juan Casassus como os pa\u00edses pobres ou aqueles que est\u00e3o em uma situa\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria. <\/p>\n<p>Uma descoberta mais importante ainda \u00e9 identificar hoje o papel predominante que representam os fatores internos nos resultados escolares e, portanto, na desigualdade de oportunidades contra a inser\u00e7\u00e3o na vida profissional. Meu desejo \u00e9 que a Unesco e os editores tomem o mais r\u00e1pido poss\u00edvel as medidas necess\u00e1rias para que um texto desta envergadura e desta import\u00e2ncia transcenda o p\u00fablico receptor dos relat\u00f3rios \u2014 n\u00e3o raro excelentes \u2014 que s\u00e3o produzidos pelas organiza\u00e7\u00f5es internacionais e os centros de estudo. O livro \u00e9 t\u00e3o revelador que deveria chegar ao mais amplo p\u00fablico poss\u00edvel e, em particular, ao c\u00edrculo dos que decidem, sejam professores ou membros da elite pol\u00edtica. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Correio Braziliense, 13\/11\/07 Alain Touraine, Soci\u00f3logo Aquilo que uma sociedade diz da educa\u00e7\u00e3o, como \u00e9, como deveria ser, nos informa muito mais do que qualquer outro discurso acerca da natureza e dos objetivos dessa sociedade. 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