{"id":1072,"date":"2007-11-12T00:00:00","date_gmt":"2007-11-12T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ascom.ufla.br\/site\/index.php\/2007\/11\/a-opcao-de-estudar-fora\/"},"modified":"2007-11-12T00:00:00","modified_gmt":"2007-11-12T00:00:00","slug":"a-opcao-de-estudar-fora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/2007\/11\/12\/a-opcao-de-estudar-fora\/","title":{"rendered":"A op\u00e7\u00e3o de estudar fora"},"content":{"rendered":"<p>Revista \u00c9poca, Ed. 495 &#8211; 12\/11\/07<\/p>\n<p>Luciana Vic\u00e1ria<\/p>\n<p>Cada vez mais brasileiros buscam uma universidade no exterior. Pode ser at\u00e9 mais barato que estudar aqui<\/p>\n<p>O brasileiro Sheide Chammas ficou impressionado quando viu, ao longe, o pr\u00e9dio g\u00f3tico que abriga uma das bibliotecas da Universidade Yale, um dos maiores e mais antigos bancos de dados do mundo. \u00c9 nessa bela constru\u00e7\u00e3o erguida pelo arquiteto americano Richard Meyer que o jovem de 19 anos ter\u00e1 a chance de se perder. Seus corredores abrigam parte do acervo de 11 milh\u00f5es de volumes, de papiros antigos a obras que s\u00f3 existem em acervo eletr\u00f4nico. Localizada em New Haven, no Estado americano de Connecticut, a escola de Chammas \u00e9 a que mais formou presidentes at\u00e9 hoje, entre eles George W. Bush e Bill Clinton. De l\u00e1 sa\u00edram mais de uma dezena de pr\u00eamios Nobel, como James Tobin, assessor econ\u00f4mico do presidente John F. Kennedy. At\u00e9 o grito de guerra de Yale \u00e9 obra de um ex-aluno ilustre que n\u00e3o chegou a concluir a gradua\u00e7\u00e3o por l\u00e1. As rimas foram criadas por Cole Porter, um dos maiores compositores americanos. Chammas \u00e9 calouro na Universidade Yale. \u00c9 um dos primeiros alunos aprovados em uma das institui\u00e7\u00f5es mais desejadas do mundo. N\u00e3o teve o mesmo sucesso quando tentou cursar Direito na Universidade Federal da Bahia. \u201cEu n\u00e3o li todos os livros e n\u00e3o estava acostumado com testes t\u00e3o longos\u201d, diz. Para compensar, conta que se preparou melhor para Yale. <\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Chammas \u00e9 tamb\u00e9m a de pelo menos 5 mil brasileiros que experimentam a gradua\u00e7\u00e3o fora do pa\u00eds neste ano. At\u00e9 dois anos atr\u00e1s, o mais comum era concluir o curso superior no Brasil e s\u00f3 depois investir em uma experi\u00eancia internacional. A tend\u00eancia se inverteu. De acordo com o Instituto Internacional de Educa\u00e7\u00e3o, no ano passado 3.582 brasileiros passaram pelo menos um semestre fazendo gradua\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos, mais que os 2.599 matriculados em cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Somem-se a eles os 1.300 brasileiros que foram para a Espanha, os 900 que foram para a Inglaterra, e por a\u00ed vai. Estima-se que o aumento de estudantes l\u00e1 fora tenha sido de 40% em menos de cinco anos. <\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es para essa tend\u00eancia \u00e9 o custo. Com o d\u00f3lar mais baixo e mensalidades em torno de US$ 1.000, os estudantes brasileiros passaram a considerar a oportunidade de estudar fora j\u00e1 na gradua\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o pre\u00e7o da Universidade Binghamton, uma das cem melhores de acordo com o anu\u00e1rio da U.S. News &#038; World Report. Ela \u00e9 mais barata que o Ibmec-SP (leia o quadro na p\u00e1gina 103). No Brasil, apenas duas universidades aparecem na lista das 200 melhores do Suplemento Times de Educa\u00e7\u00e3o Superior, publica\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica que avalia institui\u00e7\u00f5es de todos os pa\u00edses. S\u00e3o a Universidade de S\u00e3o Paulo (175o lugar) e a Universidade de Campinas (177o lugar). Em compensa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 pelo menos 30 institui\u00e7\u00f5es americanas na lista das melhores do mundo com mensalidade de cerca de US$ 1.000. <\/p>\n<p>A segunda raz\u00e3o para o aumento da procura das faculdades estrangeiras \u00e9 a pr\u00f3pria globaliza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho. A principal vantagem de estudar em uma boa universidade fora do pa\u00eds \u00e9 conseguir o que os especialistas chamam de empregabilidade global. \u201cO estudante fica mais solicitado e pode encontrar um emprego em qualquer lugar do mundo\u201d, diz Ryon Braga, consultor educacional. O economista e matem\u00e1tico Rodrigo Ferreira, de 24 anos, formado na Universidade Lawrence, no Estado americano de Wisconsin, participou de um programa de trainee e foi convidado a trabalhar em um banco de investimentos na Inglaterra. Disputou com outros 5 mil candidatos e ficou com uma das 250 vagas. \u201cAcho que levei vantagem pela bagagem cultural\u201d, diz o carioca, que estudou nos Estados Unidos<\/p>\n<p>D\u00e1 para arcar com o custo de vida em outro pa\u00eds? A resposta \u00e9 sim, na maioria dos casos. As universidades americanas e inglesas est\u00e3o preparadas para receber estudantes internacionais. Elas sabem que alunos latinos e asi\u00e1ticos, em geral, n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de se manter em outro pa\u00eds sem ajuda financeira. E oferecem algumas op\u00e7\u00f5es para isso. Os estudantes podem trabalhar no campus da universidade e trocar algumas horas di\u00e1rias como monitor de laborat\u00f3rio ou ajudante de biblioteca por comida e hospedagem. Nos EUA vale uma regra b\u00e1sica para os bons alunos: a meritocracia. \u201cSe for preciso, a gente faz um empr\u00e9stimo, mas alunos excepcionais n\u00e3o ficam de fora\u201d, diz Richard Levin, presidente de Yale. \u201cC\u00e9rebros geniais n\u00e3o t\u00eam nacionalidade. E n\u00f3s de Yale queremos todos os que forem poss\u00edveis.\u201d <\/p>\n<p>Para conquistar uma vaga l\u00e1 fora \u00e9 preciso conhecer o processo de avalia\u00e7\u00e3o (leia o quadro). N\u00e3o h\u00e1 vestibular. A prova \u00e9 uma esp\u00e9cie de Enem, o exame brasileiro que avalia o ensino m\u00e9dio. Mas n\u00e3o \u00e9 tudo. A nota \u00e9 somada ao hist\u00f3rico escolar, ao exame de profici\u00eancia em ingl\u00eas e \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o de um question\u00e1rio extenso que mede conceitos como empreendedorismo e poder de persuas\u00e3o, com perguntas do tipo: \u201cquem \u00e9 voc\u00ea?\u201d e \u201cpor que deseja ser nosso aluno\u201d. \u201cUma boa nota nesse teste \u00e9 decisiva para estudantes estrangeiros\u201d, afirma a consultora Patr\u00edcia Cas Monteiro, que diz ter colocado 252 brasileiros nas cinco melhores universidades do mundo. Foi nessa etapa importante que Chammas se destacou. Ele mandou para os avaliadores seu teorema de matem\u00e1tica, o projeto feito para drenar o campo de futebol do col\u00e9gio, que sempre alagava, e escreveu uma reda\u00e7\u00e3o sobre sua experi\u00eancia como presidente do gr\u00eamio na escola. \u201cNos EUA, o candidato que n\u00e3o tenha experi\u00eancias fora da escola para contar est\u00e1 automaticamente exclu\u00eddo do processo\u201d, afirma Thais Xavier, diretora da Funda\u00e7\u00e3o Estudar, entidade brasileira que concede bolsas de estudos para jovens no Brasil e no exterior.<\/p>\n<p>A maior parte dos estudantes brasileiros interessados em estudar fora se associa a pessoas como Patr\u00edcia, que ganha a vida treinando estudantes, ou a entidades como a Funda\u00e7\u00e3o Estudar, que conhece o caminho at\u00e9 l\u00e1. Algumas oferecem bolsas de estudos. A Funda\u00e7\u00e3o Estudar ajudou 37 universit\u00e1rios de gradua\u00e7\u00e3o neste ano, entre eles Chammas. A Fulbright, um programa de interc\u00e2mbio educacional e cultural do governo dos EUA, ofereceu ajuda a outros 50 brasileiros interessados em escolas t\u00e9cnicas de n\u00edvel superior nos EUA. A British Council deu 30 bolsas para institui\u00e7\u00f5es inglesas, e a Funda\u00e7\u00e3o Carolina outras 20 para a Espanha. <\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o tem grande desempenho acad\u00eamico, o caminho mais f\u00e1cil \u00e9 apostar na habilidade esportiva. Grande parte das universidades americanas reserva vagas para atletas. A demanda \u00e9 tamanha que hoje h\u00e1 empresas especializadas na \u00e1rea. \u201cO esporte \u00e9 o passaporte para que muitos jovens possam estudar\u201d, diz o empres\u00e1rio Felipe Fonseca, do Daquiprafora, uma esp\u00e9cie de loja de atletas universit\u00e1rios. Ele j\u00e1 encaminhou 500 jovens esportistas brasileiros para universidades americanas. Entre eles Idalina Fran\u00e7a, que conclui neste ano o curso de Com\u00e9rcio Exterior na Universidade de North Texas.<\/p>\n<p>A jovem de 25 anos diz que n\u00e3o teria dinheiro para pagar uma universidade privada no Brasil nem forma\u00e7\u00e3o para ser aprovada em uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Mas Idalina tem habilidade esportiva. Ela aprendeu a jogar t\u00eanis na academia em que o irm\u00e3o dava aula. No in\u00edcio,trabalhava como pegadora de bola. \u201cEu treinava sempre que a quadra estava vazia\u201d, diz. \u201cSei que vou deixar o esporte em alguns anos, mas a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica que estou tendo aqui j\u00e1 mudou minha vida.\u201d Neste ano, Idalina foi eleita a melhor jogadora da universidade. Ela tem bolsa para estudar e para morar. Mas tem de apresentar bom desempenho na quadra e no boletim no fim de cada semestre. <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as universidades americanas s\u00e3o tolerantes \u00e0 indecis\u00e3o dos vestibulandos. Essa foi uma das raz\u00f5es que levaram o baiano Chammas a escolher os EUA. Elas permitem que os alunos decidam a profiss\u00e3o apenas no final do 2o ano. \u201cEnquanto isso, a gente vai experimentando as disciplinas e amadurecendo a id\u00e9ia\u201d, diz Chammas. Ao se inscrever no vestibular, ele pretendia ser engenheiro. Hoje, ap\u00f3s dois meses de aula, diz que pode se formar economista. Se fosse no Brasil, o estudante teria feito sua op\u00e7\u00e3o ao preencher o manual do candidato. E, se voltasse atr\u00e1s, teria de prestar o vestibular novamente. <\/p>\n<p>Algumas \u00e1reas do conhecimento s\u00e3o bem mais desenvolvidas na Europa e nos Estados Unidos. Essa \u00e9 outra raz\u00e3o que arrasta centenas de estudantes para esses lugares. A prolifera\u00e7\u00e3o das universidades no Brasil \u00e9 recente. Em 1995, eram 894 institui\u00e7\u00f5es de ensino superior. Em 2005, o n\u00famero mais que dobrou, para 2.165, segundo o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o houve tempo, portanto, para que cursos de vanguarda como Moda, Tecnologia e Design alcan\u00e7assem o n\u00edvel de excel\u00eancia que existe em outras partes do mundo. Foi o que levou a carioca Elisa Gouveia a optar por um curso de Teatro em Nova York. Ela se formou no ano passado na Universidade Hofstra, na cidade de Long Island. De l\u00e1 para c\u00e1, j\u00e1 se apresentou em duas pe\u00e7as de teatro na Time Square e participou da filmagem de um clipe e de um curta-metragem. Pretende continuar nos Estados Unidos para fazer p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. \u201cNo Brasil, eu n\u00e3o encontraria laborat\u00f3rios de pesquisa t\u00e3o focados em interpreta\u00e7\u00e3o como aqui\u201d, diz. <\/p>\n<p>As universidades brasileiras est\u00e3o reagindo \u00e0 tend\u00eancia de globaliza\u00e7\u00e3o dos alunos. Mais de 200 institui\u00e7\u00f5es brasileiras de n\u00edvel superior j\u00e1 assinaram conv\u00eanios com universidades estrangeiras. A id\u00e9ia \u00e9 oferecer essa vantagem aos alunos que estudam aqui. A pr\u00e1tica se tornou t\u00e3o comum que ganhou at\u00e9 um nome: gradua\u00e7\u00e3o-sandu\u00edche. \u00c9 o curso de gradua\u00e7\u00e3o no Brasil com a experi\u00eancia internacional no meio. O curso de Gastronomia da Universidade Anhembi Morumbi, em S\u00e3o Paulo, unificou o curr\u00edculo com o Instituto de Educa\u00e7\u00e3o Superior Glion, na Su\u00ed\u00e7a, de modo que o aluno de l\u00e1 sai com dupla titula\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Alguns especialistas dizem que o sandu\u00edche \u00e9 ainda melhor que fazer toda a gradua\u00e7\u00e3o fora. Afirmam que a perda de contato com o mercado de trabalho durante a forma\u00e7\u00e3o superior pode colocar o estudante em desvantagem. \u201cAfinal, boa parte dos profissionais contratados passa por um programa de est\u00e1gio ou trainee durante os \u00faltimos anos do curso\u201d, diz F\u00e1tima Rosseto, consultora da DBM Brasil, uma empresa de gest\u00e3o de recursos humanos. \u201cH\u00e1 tamb\u00e9m uma id\u00e9ia falsa de supervaloriza\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo.\u201d Ela explica que a experi\u00eancia internacional \u00e9 um diferencial na carreira, mas n\u00e3o \u00e9 tudo. Em algumas \u00e1reas a gradua\u00e7\u00e3o fora \u00e9 quase invi\u00e1vel, como Direito e Medicina, em que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel revalidar o curr\u00edculo aqui sem ter de estudar tudo de novo. \u201cEstudar fora do pa\u00eds envolve planejamento de carreira \u2013 e a manuten\u00e7\u00e3o da rede de contatos no Brasil\u201d, diz o especialista em carreiras Max Gehringer, colunista de \u00c9POCA. Isso porque boa parte dos estudantes que se formam volta para come\u00e7ar a carreira no Brasil.<\/p>\n<p>Outra dificuldade \u00e9 a pr\u00f3pria adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 vida l\u00e1 fora. Mesmo jovens com experi\u00eancia pr\u00e9via de viagens ao exterior podem se surpreender com os rigores da vida cotidiana em uma universidade estrangeira. \u201cQuando um aluno chega at\u00e9 mim com a id\u00e9ia de estudar fora, eu logo pergunto se j\u00e1 experimentou o frio e como se sente em rela\u00e7\u00e3o a ele\u201d, diz a consultora Patr\u00edcia. \u201cH\u00e1 quem volte por motivos que parecem banais, mas que no dia-a-dia pesam.\u201d A consultora F\u00e1tima, da DBM Brasil, diz que j\u00e1 entrevistou rec\u00e9m-formados que tinham desistido da universidade estrangeira e terminado o curso no Brasil<\/p>\n<p>Independentemente das dificuldades, a tend\u00eancia de globaliza\u00e7\u00e3o do ensino superior \u00e9 boa para o Brasil. A experi\u00eancia que os estudantes adquirem fora contribui para criar uma cultura empreendedora aqui. \u201cA diferen\u00e7a \u00e9 que fora do Brasil os alunos aprendem a transformar conhecimento em produtividade. Eles s\u00e3o estimulados a ser empreendedores\u201d, diz Luciano Salamacha, consultor de empresas e professor da FGV-Rio. \u201cIsso \u00e9 bom para o pa\u00eds. H\u00e1 in\u00fameros casos de jovens que voltam, abrem o pr\u00f3prio neg\u00f3cio aqui e geram riqueza para o pa\u00eds.\u201d <\/p>\n<p>Foi o caso de Ricardo Alves, que abriu uma empresa de software para celulares no Brasil, depois de se formar engenheiro de computa\u00e7\u00e3o na Universidade Stanford, na Calif\u00f3rnia. Sua empresa \u00e9 uma das maiores do mercado brasileiro e j\u00e1 exporta solu\u00e7\u00f5es para os Estados Unidos e alguns pa\u00edses da Europa. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revista \u00c9poca, Ed. 495 &#8211; 12\/11\/07 Luciana Vic\u00e1ria Cada vez mais brasileiros buscam uma universidade no exterior. 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