{"id":1037,"date":"2007-11-06T00:00:00","date_gmt":"2007-11-06T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ascom.ufla.br\/site\/index.php\/2007\/11\/%c2%b4as-pessoas-tem-de-descobrir-que-perdem-tempo-quando-nao-leem%c2%b4\/"},"modified":"2007-11-06T00:00:00","modified_gmt":"2007-11-06T00:00:00","slug":"%c2%b4as-pessoas-tem-de-descobrir-que-perdem-tempo-quando-nao-leem%c2%b4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/2007\/11\/06\/%c2%b4as-pessoas-tem-de-descobrir-que-perdem-tempo-quando-nao-leem%c2%b4\/","title":{"rendered":"\u00b4As pessoas t\u00eam de descobrir que perdem tempo quando n\u00e3o l\u00eaem\u00b4"},"content":{"rendered":"<p>O Estado de S\u00e3o Paulo, 05\/11\/07<\/p>\n<p>Simone Iwasso <\/p>\n<p>Entrevista com Delia Lerner: educadora argentina, consultora de \u00f3rg\u00e3os governamentais em v\u00e1rios pa\u00edses, especialista afirma que as escolas n\u00e3o sabem ensinar leitura e escrita <\/p>\n<p>Mesmo com todos os conhecimentos cient\u00edficos sobre a aquisi\u00e7\u00e3o da leitura e escrita desenvolvidos nos \u00faltimos 30 anos, a escola ainda insiste num foco equivocado: ensina a l\u00edngua e n\u00e3o as pr\u00e1ticas sociais vinculadas a ela. Ou seja, al\u00e9m de n\u00e3o conseguir dar sentido ao ato de ler e escrever, despertando o interesse do estudante, cobra nas avalia\u00e7\u00f5es o que n\u00e3o foi transmitido em sala de aula. A an\u00e1lise \u00e9 da educadora argentina Delia Lerner, especialista da Universidade de Buenos Aires e consultora de diversos \u00f3rg\u00e3os governamentais na Am\u00e9rica Latina, inclusive no Brasil, onde assessora o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC). Com a experi\u00eancia de quem, al\u00e9m do trabalho acad\u00eamico, mant\u00e9m uma escola em Buenos Aires, que funciona como seu laborat\u00f3rio, Delia esteve no Pa\u00eds em outubro para falar com educadores durante a Semana Victor Civita de Educa\u00e7\u00e3o. A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estado. <\/p>\n<p>Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil formar estudantes com autonomia para leitura e escrita? <\/p>\n<p>H\u00e1 dois problemas diferentes. Um deles \u00e9 o pr\u00f3prio ensino de leitura e da escrita. O outro \u00e9 se as avalia\u00e7\u00f5es aplicadas para verificar leitura e escrita est\u00e3o realmente avaliando. Para mim, n\u00e3o \u00e9 evidente que devemos ter confian\u00e7a nos resultados dessas avalia\u00e7\u00f5es porque a leitura e escrita s\u00e3o processos que se desenvolvem com o tempo e, mesmo que seja importante para o sistema educacional ter uma fotografia instant\u00e2nea do que se passa no momento, n\u00e3o \u00e9 o que importa realmente para quem est\u00e1 olhando de dentro da classe. O importante \u00e9 fazer com que os alunos avancem como leitores e escritores. Muitas provas s\u00e3o feitas \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de provas internacionais &#8211; algumas inclusive s\u00e3o internacionais. Por exemplo, na Argentina houve muito esc\u00e2ndalo quando se compararam os resultados da Finl\u00e2ndia com os da Argentina. Bom, \u00e9 necess\u00e1rio nos questionarmos qual o sentido em comparar resultados de pa\u00edses t\u00e3o diferentes. Escutei uma entrevista do ministro da Educa\u00e7\u00e3o da Finl\u00e2ndia sobre a que ele devia t\u00e3o bons resultados. Ele respondeu que os professores recebiam sal\u00e1rios muito bons, estavam em constante forma\u00e7\u00e3o e tinham excelentes condi\u00e7\u00f5es trabalhistas. Isso, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Argentina, j\u00e1 diz muita coisa sobre o nosso sistema, n\u00e3o sobre nossos alunos. Esse \u00e9 um problema. O outro \u00e9 que, no sistema educacional constitu\u00eddo, a leitura e a escrita como processos n\u00e3o s\u00e3o objeto de ensino. No caso da escrita, ela \u00e9 objeto de avalia\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o de ensino. O que se visualiza como objeto de ensino tradicionalmente \u00e9 a l\u00edngua, n\u00e3o as pr\u00e1ticas de linguagem vinculadas a ela.<\/p>\n<p>Como mudar essa cultura de falta de ensino?<\/p>\n<p>N\u00e3o creio que seja s\u00f3 o professor que possa mudar algo. H\u00e1 muitos que tentam. Um dos pontos mais elementares \u00e9 que os professores, desde cedo, leiam muito para seus alunos. E leiam obras de qualidade. Ao menos na minha experi\u00eancia, ler para as crian\u00e7as \u00e9 uma das medidas mais f\u00e1ceis de serem inseridas no sistema escolar com resultado. \u00c9 essencial que, desde o in\u00edcio da escolariza\u00e7\u00e3o, leitura e escrita estejam dotadas do sentido que realmente t\u00eam. A escola entende que ler e escrever n\u00e3o s\u00e3o atividades que se aprendem s\u00f3 para ler e escrever, mas tamb\u00e9m para comunicar-se com outros, para informar-se sobre os outros, para apreciar as qualidades liter\u00e1rias de um autor, para pensar melhor, aprofundar as id\u00e9ias. A escola precisa mostrar as situa\u00e7\u00f5es nas quais se pode trabalhar escrita e leitura com prop\u00f3sitos t\u00e3o interessantes quanto os que s\u00e3o oferecidos fora da escola. <\/p>\n<p>Como o desenvolvimento cient\u00edfico e os avan\u00e7os do conhecimento sobre o sistema cognitivo infantil, podem contribuir para o ensino?<\/p>\n<p>Um aspecto fundamental do ensino \u00e9 propor problemas cognitivos aos alunos porque, ao tentar respond\u00ea-los, eles estar\u00e3o produzindo conhecimento como resposta. Dessa perspectiva, conhecer as id\u00e9ias das crian\u00e7as, como os processos que elas desenvolvem, \u00e9 fundamental porque permite organizar situa\u00e7\u00f5es did\u00e1ticas nas quais as crian\u00e7as podem intervir, que tipo de desafios eles podem conseguir resolver usando seus conhecimentos pr\u00e9vios, permite aproximar o ensino da aprendizagem. Essa aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial para acabar com as alt\u00edssimas taxas do fracasso escolar. Para n\u00f3s, foram um aporte muito forte os descobrimentos ling\u00fc\u00edsticos, os modelos de psicologia cognitiva sobre o modelo de escrita. Os estudos mais recentes focam muito no n\u00edvel da palavra, que, para o uso com a aprendizagem, sabemos n\u00e3o ser suficiente. Ent\u00e3o usamos menos os conhecimentos mais atuais. Em Buenos Aires, todas as escolas p\u00fablicas t\u00eam laborat\u00f3rio de computa\u00e7\u00e3o e todas as s\u00e9ries, uma ou duas vezes por semana, t\u00eam hor\u00e1rios reservados para usar o computador. Agora, h\u00e1 uma diferen\u00e7a qualitativa quando existe um ajudante de um professor que \u00e9 monitor desses laborat\u00f3rios e quando tudo est\u00e1 nas m\u00e3os de um garoto que entende muito de computadores, mas nada de ensino. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura foi mais dif\u00edcil por causa do hipertexto. Isso que estamos incorporando nas escolas que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es prop\u00f5e muitos problemas did\u00e1ticos. Como fazer para que os estudantes decidam se uma informa\u00e7\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel ou n\u00e3o? Como fazer com que eles a comparem com outras fontes de informa\u00e7\u00e3o? Como lidar com a possibilidade de reprodu\u00e7\u00e3o sem gerar condi\u00e7\u00f5es did\u00e1ticas para que os alunos sejam autores e n\u00e3o mescladores de textos de outras pessoas? Isso \u00e9 mais dif\u00edcil hoje. \u00c9 um novo problema did\u00e1tico. <\/p>\n<p>O que seria essencial que pais e professores soubessem?<\/p>\n<p>Gostaria que todo mundo tivesse a possibilidade de descobrir que a leitura e a escrita s\u00e3o ferramentas de desenvolvimento pessoal importantes. Sempre me lembro de um especialista franc\u00eas em leitura que fazia a seguinte atividade com os alunos: ir \u00e0 biblioteca e analisar todos os livros que eles nunca leram. E descobrir por que n\u00e3o os leram. Com esse tipo de atividade, ele conseguia fazer os estudantes se interessarem mais e desenvolverem um senso cr\u00edtico. Para que algu\u00e9m se transforme em um n\u00e3o-leitor, que seja um n\u00e3o-leitor cr\u00edtico, que saiba porque est\u00e1 lendo e porque n\u00e3o est\u00e1 lendo. Se alguma coisa as ferramentas tecnol\u00f3gicas fizeram foi obrigar as pessoas a ler. Crian\u00e7as que n\u00e3o l\u00eaem passam o dia trocando mensagens pelo celular. As pessoas precisam descobrir o que est\u00e3o perdendo quando n\u00e3o l\u00eaem. Se elas soubessem disso, muitos n\u00e3o-leitores se tornariam leitores. Muitas crian\u00e7as n\u00e3o sabem o que podem encontrar na leitura. E seria muito bom se a escola conseguisse um dia lhes mostrar isso. <\/p>\n<p>Quem \u00e9:<\/p>\n<p>Delia Lerner<\/p>\n<p>A educadora trabalha como assessora de \u00f3rg\u00e3os governamentais em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e na Espanha<\/p>\n<p>\u00c9 professora da Universidade de Buenos Aires e da Universidade de La Plata, na Argentina <\/p>\n<p>Trabalha como consultora do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) nas \u00e1reas de <br \/>\nalfabetiza\u00e7\u00e3o e curr\u00edculos \n <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Estado de S\u00e3o Paulo, 05\/11\/07 Simone Iwasso Entrevista com Delia Lerner: educadora argentina, consultora de \u00f3rg\u00e3os governamentais em v\u00e1rios pa\u00edses, especialista afirma que as escolas n\u00e3o sabem ensinar leitura e escrita Mesmo com todos os conhecimentos cient\u00edficos sobre a aquisi\u00e7\u00e3o da leitura e escrita desenvolvidos nos \u00faltimos 30 anos, a escola ainda insiste num &hellip; <a href=\"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/2007\/11\/06\/%c2%b4as-pessoas-tem-de-descobrir-que-perdem-tempo-quando-nao-leem%c2%b4\/\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">\u00b4As pessoas t\u00eam de descobrir que perdem tempo quando n\u00e3o l\u00eaem\u00b4<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1037","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1037","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1037"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1037\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1037"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1037"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufla.br\/dcom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1037"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}